Depois do Silêncio...

Casal abraçado em um campo, olhando para o horizonte sob um céu nublado, simbolizando silêncio, reflexão e conexão emocional.

Carta Terapêutica - Uma Introdução

Cecília escreve a partir de um ponto de silêncio — não como ausência, mas como presença que observa, revela e desloca.

Há momentos na vida em que o silêncio se aproxima quando as palavras já não dão conta do que sentimos; quando seguimos adiante, mas algo em nós pede pausa.

A carta Depois do Silêncio nasce nesse território liminar, onde afetos, imagens e expectativas começam a se desorganizar. Um espaço em que aquilo que sustentamos por hábito, medo ou idealização já não se mantém da mesma forma.

Esta é uma leitura para quem se permite escutar com mais cuidado os movimentos sutis da vida interior — sem pressa de compreender, sem necessidade de concluir.




Depois do Silêncio...

São Paulo, 13 de julho de 2016



Querido Fernando,


Eu estava ali, quieta no meu canto, quando o silêncio se aproximou.

Não veio para me punir, nem para me constranger. Veio para conversar comigo.

Falou-me do barulho das relações humanas  — de como todos falam ao mesmo tempo, seja em voz alta ou dentro da própria mente. Não são duelos de espadas, disse ele, mas embates de desejos confusos, carentes de sentido.

Contou-me que sempre esteve por perto, à espreita, aguardando uma fresta  para se mostrar. Mas sabia que, em meio ao tagarelar incessante, poucos têm coragem de escutálo. Porque o silêncio, meu caro, é o espelho de quem não foge.

Foi então que ele me mostrou algo que doeu enxergar:estávamos ali, você e eu, de mãos dadas  — mas não verdadeiramente juntos.

Tu estavas de mãos dadas com tuas ilusões; eu, com meus devaneios.

Relacionamo-nos não um com o outro, mas com as imagens que criamos.

Você amava a fantasia de mim; eu amava a ideia de você. E, por um tempo, isso pareceu suficiente.

Havia afeto entre nós  —  disso não duvido.

Mas não o tipo de amor que imaginávamos.

Era um afeto confuso, atravessado por carências antigas, por desejos de completude, por feridas que tentávamos curar usando um ao outro como abrigo. Não por maldade, mas por ignorância. Não sabíamos ainda amar sem nos perder.

Quando finalmente aceitei que estava equivocada na forma como te enxergava, fui obrigada a olhar para mim. E ali encontrei meus maiores medos.

 Naquele tempo, eu não sabia nomear o que acontecia. Hoje compreendo:

nosso encontro, mesmo breve, foi intenso o suficiente para me impedir de continuar fingindo.

Era preciso parar.

Era preciso silenciar.

Era preciso olhar para dentro.

Foi na quietude  — quando o silêncio deixou de ser ameaça e se tornou presença  — que compreendi algo essencial: o amor é grande demais para caber nas nossas ideias equivocadas.

O amor não é posse.

Não é projeto.

Não é promessa de completude.

O amor é presença.

Hoje posso dizer, com serenidade: eu te amo.

Mas é um amor que vê a tua alma — e, ao vê-la, não tenta segurá-la.

Um amor que liberta.

 Ah, o silêncio…

Que professor paciente e bondoso


Com carinho,

Cecília

 

 

Entrelinhas

Nesta narrativa íntima, o silêncio não oferece respostas prontas. Ele apenas se faz presente — e, ao se fazer presente, revela camadas que antes permaneciam encobertas.

Talvez essa carta toque em experiências conhecidas: o encontro com as próprias projeções, a confusão entre afeto e idealização, a dificuldade de amar sem se perder de si. Ou talvez desperte outras imagens, outros sentimentos, outros ecos — únicos para cada leitor.

Ao escrever para Fernando, Cecília não fala apenas de uma relação passada. Ela escreve a partir de um movimento interno que muitos reconhecem: o instante em que já não é possível continuar sustentando aquilo que não é verdadeiro.

Depois do Silêncio não anuncia um fim definitivo, nem celebra um começo ideal. Ela acompanha um momento de lucidez possível — aquele que surge quando deixamos de fugir do que precisa ser visto.

 

Se fizer sentido, permita que essa leitura encontre em você o tempo e o espaço que precisar.

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