Entre o Eu e o Tempo
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Carta Terapêutica Entre o Eu e o Tempo
Existe um lugar silencioso dentro de nós onde o que fomos e o que somos se encontram. Um espaço invisível onde as lembranças conversam com os sonhos, e o passado toca de leve o presente. É nesse território íntimo — entre o eu que fui e o eu que sou — que essa carta nasce. Escrevo do intervalo sutil entre o que a vida levou e o que, estranhamente, ainda permanece.
São Paulo, 14 de junho de 2020 Querida Márcia,
Hoje, enquanto organizava o famoso “quarto da bagunça”, encontrei uma caixa que eu havia esquecido completamente. Dentro dela, tantos objetos… pequenas lembranças de tempos que ainda vivem em mim. Entre papéis e cheiros de passado, havia álbuns de fotografias — uns dez, acredito. Cada um parecia guardar uma parte da minha história, como se minha vida estivesse ali organizada em capítulos silenciosos.
Também havia um envelope envelhecido, amarelado pelo tempo. Ao abri-lo, as fotografias saltaram aos meus olhos como fragmentos de uma existência que, por algum motivo, eu havia deixado adormecer. Não foi apenas das fotos que eu havia me esquecido — esqueci-me daquela época, daquela versão de mim, dos desejos que me atravessavam e das certezas que eu julgava eternas.
Ao folhear as imagens, percebi o quanto mudei. Não falo apenas dos cabelos embranquecidos, mas do olhar. Havia ali uma leveza, uma inocência quase colorida, que hoje observo com ternura e um certo espanto. Era outra forma de ver o mundo — mais ingênua, talvez, mas também mais disponível, menos defensiva, mais aberta às pequenas alegrias que hoje muitas vezes passam despercebidas.
Não sou mais aquela. E tampouco são as pessoas que aparecem ao meu lado. Algumas mudaram, outras partiram, outras permanecem as mesmas — embora o tempo as tenha remodelado em silêncios sutis. Heráclito já dizia:
“Ninguém entra duas vezes no mesmo rio, pois nem o rio é o mesmo, nem o homem é o mesmo.”
Mesmo que nos reuníssemos hoje, no mesmo lugar, com as mesmas roupas e sorrisos, não seríamos as mesmas de vinte anos atrás. Mudamos por dentro, em camadas invisíveis. Mudamos nas dores que aprendemos a carregar, nas escolhas que deixamos de fazer, nas que tivemos coragem de assumir. Mudamos — e a forma como olhamos para a vida, para o outro e para nós mesmas revela o quanto crescemos.
A ingenuidade deu lugar às rugas, é verdade, mas também a uma consciência mais profunda. Em alguns, ela se transforma em cansaço ou melancolia; em outros, em serenidade. Em mim, ela virou uma mistura complexa de sentimentos: ternura, saudade, cansaço, gratidão — e um apego curioso por tudo aquilo que já não faz sentido, mas ainda pulsa, como uma música antiga que insiste em tocar por dentro.
Hoje me percebo como um mosaico de memórias: experiências boas e ruins, sonhos realizados e outros que ficaram pelo caminho, amores que não aconteceram e silêncios que ensinaram mais do que muitas palavras.
Sinto que me tornei mais afetuosa, mais paciente comigo mesma e com os outros. Os erros já não me ferem com a mesma violência de antes. Talvez seja isso o amadurecimento: não a ausência de falhas, mas a capacidade de olhá-las sem crueldade. Um tipo de perdão que começa dentro.
Penso que sou um projeto em construção — e assim serei até o fim. Não porque algo esteja faltando, mas porque sempre haverá algo florescendo. Há uma beleza suave nessa incompletude, como há nos fins de tarde que não precisam ser espetaculares para serem verdadeiros.
Aprendi que não somos feitos apenas de conquistas, mas de atravessamentos. E que cada versão nossa foi necessária para nos trazer até aqui. Mesmo as mais frágeis. Mesmo as que erraram.
E você, minha amiga…
em que parte do seu rio você está agora?
Corre em águas calmas? Está entre redemoinhos? Ou navega em silêncios profundos?
Tenho certeza de que também carrega em si tantas versões, tantas marés escondidas nas dobras da memória.
Com saudade e carinho,
Adriana
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